domingo, 29 de enero de 2012

Reflexiones Biocéntricas

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REFLEXÕES SOBRE A CULTURA BIOCÊNTRICA

Cézar Wagner de Lima Góis

Diante do quadro atual da ciência, da mística e dos problemas humanos e sociais, dentro do enfoque da complexidade, do cotidiano e do amor, como podemos falar da Cultura? Como ficamos nós diante do nosso dia-a-dia consigo mesmo, com os outros e com a Natureza?

Para contribuir com essas reflexões pretendo expor aqui algumas questões relativas ao tema da Cultura Biocêntrica, como a visão antropocêntrica, a visão biocêntrica, o sentir-se vivo, o dançar a vida e o dançar com os outros. São questões que entendo essenciais para a mudança cultural numa perspectiva biocêntrica ou referenciada na vida.

É claro que a cultura atual leva em consideração a vida em todas as suas manifestações, mas a grande questão é o lugar que o ser humano se encontra para estar com ele mesmo e com todas as outras manifestações da vida. 



Introdução
O processo civilizatório nos trouxe até aqui, um momento de profundos sentimentos e reflexões coletivas sobre a vida social, o conhecimento, a tecnologia e, mesmo, sobre a própria cultura. Avançamos, iluminamos cada vez mais o nosso caminhar, fazendo estradas e indo a lugares insuspeitados, por dentro e por fora de nós mesmos. Nada nos detém, nem mesmo a Natureza com a sua energia vital que, em muitos instantes, assinala de forma poderosa e dramática a sua presença no cenário social do mundo urbano e do mundo rural, como se viu recentemente nas imagens televisivas do Tsunami no Oceano Índico, dos furacões na Flórida, do terremoto no Paquistão e da seca na Amazônia.

Somos capazes de produzir alimentos, viajar, curar doenças, construir abrigos, proteger-se, aumentar a população, educar nossos filhos, fazer satélites, aviões, bombas, vacinas, músicas, poemas, esculturas e tantas obras de arte. Somos capazes de amar, de se enternecer com o vôo do pássaro e com o sorriso da criança. Podemos até pensar que a Natureza está fora de nós, que somos os senhores de si mesmos e de tudo que existe, vindo nós ao mundo para reinar sobre todas as criaturas. Somos capazes de controlar e de criar, somos senhores de Cronos e do planeta Terra. 


Do pequeno osso usado como instrumento e dos primeiros sons articulados aos satélites espaciais, computadores e internet, percorremos um longo caminho de 07 milhões de anos, em contínuas bifurcações ou ramificações, onde um só caminhar prevaleceu e se mantém até hoje – o do homo sapiens ao homem moderno.

Do rosto voltado para o chão, depois para as distâncias, estamos hoje com o rosto voltado para as estrelas e para a nossa própria sutileza e refinamento interiores. Para onde estamos indo, se é que estamos indo para algum lugar? O que nos atrai, o que nos impulsiona pela roda do tempo nesses espaços dobrados e desdobrados de coisas e de vazios chamado Universo?

O poder da vida e o poder de viver do homo sapiens são obras fascinantes de uma realidade poderosa, incomensurável, sagrada, bela e profundamente sutil, presente mais precioso dos pais aos filhos e filhas, o misterioso processo da divisão e integração celulares que, em pouco tempo, multiplicando e enlaçando as células por dentro de algo maior (um embrião, um feto, um recém-nascido, um ser humano) amarra o mundo interno ao mundo externo, até por fim gerar a consciência, a cultura e a infinita possibilidade de realização humana. 


A consciência é uma fantástica dobradura biológica, é a vida passando a se ver, a vida se pensando, o sentir que sente, o comer que come, o tocar que toca, o andar que anda, o olhar que olhar, o falar que fala.

Diante de tal quadro da realidade humana o ser humano pode ser levado a se perceber e a se sentir privilegiado, filho de um Pai Criador nascido para reinar no mundo. Apaixonado por si mesmo muitas vezes vai deixando de lado o vínculo natural que a tudo une em uma profunda e sensível dança da Natureza. Passa a representar a si mesmo como o Filho de Deus e se posta em um trono devastador das riquezas naturais, inclusive da vida que há em si mesmo (estilo de adoecer).

O homo sapiens sobreviveu, faz história, faz cultura e se afasta cada vez mais de sua antiga caverna, dos animais, dos elementos naturais, do seu corpo, de sua espontaneidade, do prazer que incendeia a mente e da convivência com o selvagem interior e abismal. Olha ele muitas vezes, com nostalgia, para o eterno e prometido paraíso, mas sabe, pela sensibilidade e consciência, que a flecha do tempo, voraz, continua seu trajeto cultural. Afastar-se da cultura não é possível sob pena de desaparecer; tampouco seguir pela mesma trajetória garantiria a repotencialização da nossa energia vital que, de tão bloqueada e deformada, gera doenças de civilização. O que fazer, se o caminhar antropocêntrico assinala seu esgotamento e limitação frente às novas exigências humanas, sociais e naturais? 

Visão Antropocêntrica

A visão antropocêntrica nos legou extraordinários avanços no campo da ciência, da técnica e da organização social, construiu as bases da cultura moderna, iniciadas na Renascença e consolidadas no século XX. O Iluminismo francês, o Idealismo alemão, a grandeza da razão humana e seus métodos de pensar, controlar e atuar, foram em geral aplaudidos e reverenciados como o caminho pelo qual se faria a redenção humana, o novo homem e o estágio positivo da sociedade. A relação sujeito-objeto, no mundo ocidental, tornou-se a condição primeira, quem sabe a única, para o ato de conhecer.

Séculos se passaram desde Galileu e Descartes, levando a mente racional por caminhos de construção de modelos lógicos cada vez mais avançados no afã de conhecer, porém baseados em fragmentações e reducionismos da realidade; tecendo caminhos de linearidades e descontinuidades que marcaram o avanço da Ciência, da Técnica e da organização do Estado e da vida social.

Adentramos ao Século XXI com toda a robustez de um conhecimento, de uma tecnologia e de uma sociedade legislada, marcando a nossa entrada com novos conhecimentos e novas leis, porém trazendo à tona algumas outras perguntas essenciais à vida humana, em geral, relacionadas a um tema vital - o vínculo que estabelecemos, na trajetória da cultura moderna, para consigo mesmo, com os outros e com a Natureza, e suas conseqüências para a Natureza, para cada um de nós e para a sociedade nesse começar do novo século.

Seguir sendo o filho de Deus (teocentrismo) ou mesmo sendo o próprio Deus (antropocentrismo), talvez não seja uma saída, pois esses caminhos ao longo do tempo se fragilizaram ou, até mesmo, se esgotaram.


Não quero com isso negar a Ciência nem a Religião, quero somente dizer da necessidade de um novo reposicionamento do homo sapiens com relação à Natureza e à Cultura, e mesmo com relação à presença de seus Deuses em suas vidas e em todas as coisas que existem.

A cultura muda continuamente, mas em quais direções se dão essas mudanças? Quais os parâmetros ou paradigmas que orientam essas mudanças? Urge novos olhares, um novo (e antigo) sentir, outros parâmetros, não apenas ideológicos, mas sim profundamente marcados por uma nova sensibilidade frente à vida. Novas maneiras de sentir e perceber, uma nova visão da vida.

Visão Biocêntrica
Considero essa percepção uma visão da vida na qual o universo aparece como um fabuloso espaço de matéria visível e escura (fechado ou aberto não o sabemos), que se organiza (autopoiesis) no sentido da vida e que aumenta de complexidade através de sua própria diversidade e conectividade cósmicas. Evolui por si mesmo mediante azar e caos, e relações pouco conhecidas, principalmente entre suas forças fundamentais - gravitação, eletromagnetismo, força nuclear forte e força nuclear fraca - possibilitando, em última análise, a coerência universal - dança de determinações e indeterminações de fluxos que fazem um Universo altamente instável, evolutivo, irreversível e auto-organizado.

Se Deus não joga os dados ou se Deus joga os dados, isso não é o principal, pois as duas questões são faces da mesma moeda, da mesma complexidade. Concordo com Raul Terrén quando diz que "Deus joga os dados e sempre ganha".
A compreensão de um Universo que se organiza como sistema vivo mediante uma dança de caos e harmonia, pode parecer sem sentido ou mesmo ambiciosa, porém estudos recentes (voltados para uma Ciência da Vida) apontam na direção de uma visão mais profunda da vida, como algo mais complexo, sistêmico, auto-regulável e capaz de manifestar-se como um planeta vivo (Gaia). 


A percepção da Terra ou do Universo, como algo vivo é antiga, vem dos Pré-Sumerianos. Ciência e Religião trataram o tema de maneira diferente depois de Galileu, porém na fase atual do conhecimento científico e do resgate da antiga religiosidade (Tradição), nos encontramos frente a profundas convergências entre elas acerca do macro e do microcosmo.

Hoje posso dizer que a noção de vida como algo de dimensão planetária ou cósmica está presente na Ciência, nas experiências místicas e na vida comum de qualquer pessoa sensível. Investigar e vivenciar essa presença da vida como estrutura-guia é o grande desafio que, inevitavelmente, nos deslocará para novos paradigmas da existência, a uma visão biocêntrica, a qual ultrapassa o panorama holístico (a tendência do todo se manifestar na diversidade, e esta, por conseguinte, revelar em sua potencialidade o todo) e se manifesta em um sentimento sagrado da Vida e do Universo, de todas as coisas existentes, sentimento este que tem como origem a vivência biocêntrica.

A compreensão de que isto é assim ultrapassa os limites das formas atuais de pensar e se aprofunda na vivência mesma do ser como corporeidade amorosa em sua viagem pelo mundo de si mesmo, no qual se revela a unicidade do espaço interior com o espaço exterior (Campbell, 1991). Tal clareza vem da epifania da vivência da identidade, do si-mesmo, do ato simples do viver.



Sentir-se Vivo
A visão biocêntrica não se confunde com a idéia de um Deus antropomórfico. Ela surge da vivência do sentir-se vivo, do sentir-se como parte da criação, como expressão da auto-poiesis cósmica. 


O sentir-se vivo é o alicerce, é o que vincula, nutre, fortalece e revela o homo sapiens moderno. É a expressão natural, espontânea e cultural da vida como singularidade, como auto-poiesis particular da auto-poiesis cósmica. Do sentir-se vivo é que surge a percepção do si-mesmo, de um sentimento de vida, o qual vem da Biologia em direção a Psicologia, da transformação do animal em espírito enraizado, ou corporeidade vivida. É a mudança do selvagem em linguagem e sua volta a um lugar anterior e fonte de sua aparição em um mundo natural e espontâneo - a vida animal. Ao voltar à fonte animal, à Natureza, conecta-se a uma verdadeira conspiração pelo ato de viver. Por isso, o Mestre é a Natureza em nós.
Sinto com profundidade a conspiração pelo ato de viver, a existência de uma essência humana libertária, em algo vital que impulsiona o ser à vida e a algum lugar do infinito, cuja origem não está na consciência ou em qualquer forma de representação mental, e sim em nosso sentir, em nossa raiz animal e selvagem, mundo bruto e indiviso. Encontro aí a vida como possibilidade singular, potencialidade muitas vezes bloqueada, reprimida, negada, porém sempre presente. Só desaparece com a destruição do ser.

O ser humano surge dessa realidade bruta e indivisa, em um determinado instante, como uma onda no oceano, construindo-se na dança de caos e harmonia, em íntimos processos de fusão e diferenciação, e sendo capaz de sentir e perceber isso. Essa conexão profunda, que alimenta e constitui a natureza humana, é o húmus interior que nos faz vivos, instintivos, corporais e íntimos do Cosmos.



Dançar a Vida é Participar da Vida
É mergulhar em um paradoxo misterioso que se impõe frente ao conhecimento e ao próprio espírito humano, mas que tem profunda ressonância no coração. É permitir-se como um participante de uma grande dança a dançar o sagrado no cotidiano, na forma de conhecimento (Ciência), beleza (Arte), mistério (Mística) e vínculo (Amor). Dançar sendo plenamente o movimento das vísceras e dos nossos líquidos, o movimento geral do corpo no espaço desenhando no ar a forma da criação e da liberdade; dançar sendo o movimento desdobrado do movimento da vida, do Cosmos, desdobrado da dança das energias/partículas, da dança do pólen, das estrelas e dos animais, dança de determinações e incertezas, harmonia que germina o caos e este, como pai, germina a mãe que o gerou.

Dançar é tecer a vida, conspirar pelo ato de viver no leito natural da realidade, da cultura, na flecha do tempo, em uma estranha rota de caos e harmonia. Tecer a vida é, a cada dia, celebrar o ato criador, sentir-se brotando por dentro e por fora, perceber-se possuidor de um potencial de vida capaz de projetar-se em múltiplas possibilidades de realização e singularidade.

Ao falar de dançar a vida estou falando de participar da vida, de cultivá-la, de ser criatura e criador dessa dança cósmica revelada humana e dançada como história e cultura. Participar é estar aqui consigo mesmo, com a humanidade e com o Universo, sentindo o coração da Natureza pulsando em nossos próprios rios interiores, cujas nascentes e deságües estão no infinito. Participar da vida é nascer e renascer a cada instante, a cada dia, de um útero, pintando na tela da realidade a existência, bem antes de conhecê-la.

Participar é fazer do seu gesto um ato permanente de educar, que liberta da fusão as sementes que pulsam e anseiam naturalmente germinar. Somos sementes como as sementes, conectadas por uma rede de relações vitais, fios de natureza que nos conectam entre si e ao infinito, chamando-nos a dançar com autonomia e plenitude essa grande dança de comunicação e encontro. Nada pode deter esse chamado, a não ser a própria vida em sua força auto-organizadora e auto-transcendente.

Cada ser vivo é uma semente que vibra e se expande conduzida por uma trajetória instável de bilhões de anos. Não há na cultura algo tão complexo, incerto, neguentrópico e belo. Somos sementes como a própria semente, buscamos vínculo, nutrição e crescimento. Ao jardineiro cabe somente cuidar com amor, protegendo e nutrindo, pois os seus caminhos farão por conta própria, seguindo seus fios de natureza em direção a algum lugar da vida.

Por isso a dança, o gesto espontâneo e amoroso do jardineiro, a dança como ato de educar - ato de amor, uma dança amorosa de germinação e não um caminho estreito de valores e ideologias de um grupo dominante ou de uma só cultura.
Enfim, dançar a vida é construir um cotidiano de vínculo, um trabalho com sentido, com prazer, abrir-se ao encontro com as pessoas e lutar contra a opressão e exploração simplesmente por amar ao outro e à vida. É aceitar e estimular a expressão dos corpos-combativos, dos corpos-estrelas, dos corpos-apaixonados, em todas as idades, em casa e nas ruas. Dançar a vida é cultivar o amor, alicerce da cultura biocêntrica.



Conclusão
Para onde nos leva a dança da vida, o participar do mundo de hoje, da sociedade? Nos leva é certo a muitos caminhos, mas urge um principal - o da cultura biocêntrica, o de contribuir com uma sociedade amante, democrática e transcendente.

Sei que, para muita gente, isso é apenas mais uma das utopias, mas para outros o sentido da vida social está aí. Por isso seguem, caminhando e cantando a canção que diz que "somos todos iguais, braços dados ou não, nas escolas, nas ruas, campos e construções, caminhando e cantando e seguindo a canção" (Vandré, 1968).

Aos poucos, (é a nossa esperança e a nossa luta), um novo (e antigo) sentimento do humano e da vida poderá prevalecer sobre a cultura do individualismo e do consumismo, se tornando mais presentes nos corações e nas mentes das novas gerações. Este cultivo de sentimentos e de sentidos já começou, embora saibamos da existência de graves obstáculos à sua semeadura e colheita, tais como o antropocentrismo, a ideologia masculina, o individualismo, o autoritarismo, a xenofobia, o fascismo, o fetiche do capital, a exclusão social e o desamor.

O mundo histórico-social de hoje continua sendo, também, um mundo cheio de contrastes perversos (desigualdades sociais e dominação), apesar de contar com sofisticados sistemas de conhecimento, de direito, de produção, de transportes e de comunicação. Mesmo assim é um mundo vivo, real e próprio à humanização e à natureza, um terreno fértil para a construção de uma grande roda de culturas em meio à Natureza - uma roda de amor, de aceitação e de integração das diferenças.
Isso ainda é uma utopia, mas a integração entre as culturas é possível, desde que participemos amorosamente da tecitura de valores pró-vida por meio de uma educação biocêntrica. Este grande sonho já sonhado por muitos que já morreram e por muitos que estão lutando por ele, em todos os lugares do nosso querido Planeta Terra, nossa morada de hoje, um dia poderá ser realidade.

Não precisamos temer. É preciso coragem para perceber o nosso próprio brilho interior e querer construir uma cultura biocêntrica, um mundo com amor e prazer, portanto, vinculado à Vida.

Um sonho como esse nasce do olhar e do gesto generoso e simples de quem ama, do diálogo, de uma nova (e antiga) sensibilidade que permite captar a beleza da vida se fazendo em cada rosto, em cada ser vivo, em cada partícula do Universo.

É preciso não se dispersar, não perder de vista o sonho da Cultura Biocêntrica.
*Doutor em Psicologia pela Universidade de Barcelona Prof. de Psicologia da Universi-dade Federal do Ceará


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